Contando as ondas do mar e vendo as unhas dos pés crescerem.
domingo, 10 de janeiro de 2010
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Vinte e três segundos
O Dão, auxiliar do treinador, observa tudo sem dizer uma palavra. De vez em quando, balança a cabeça em sinal de concordância e passa o pano sujo para tirar o suor da careca. Confio mais nele que no treinador. É um preto velho alagoano, ex-lutador, misto de gordo e forte. Não chegou a conhecer a glória, mas a desgraça volta e meia batia em sua porta. Perdeu quase tudo em cima dos ringues. Perdeu o baço, perdeu a metade dos dentes, perdeu por pontos para a vida. O nocaute técnico veio no fim da carreira: lutava em troca de comida. Até que topou com um conterrâneo de São Luís do Quitunde na subida da Augusta, que o convidou para participar dos telecatches da antiga TV Excelsior. Ganhou uma fantasia prateada, um camarim para dividir com mais oito marmanjos e o direito de distribuir sopapos de mentirinha em quem bem entendesse. Apesar do cachê minguado, estava feliz. Mas a alegria de pobre, sabe como é. Levou um pé na bunda sem mais nem menos. Aí arranjou essa boquinha de auxiliar do treinador. O Dão me viu passando uma descompostura num fulano e me levou para treinar num galpão na Barra Funda. Me deu casa (o próprio galpão), comida, respeito e muita sapecada nos treinamentos. É o pai que eu não tive.
O treinador não pára de fumar. A nuvem espessa formada à sua volta não consegue encobrir o seu nervosismo. Mais parece uma maria-fumaça ziguezagueando de um lado para outro. Ele nem sonhava que eu disputasse o Sul-americano. Decerto imaginou que eu fosse passar a vida toda batendo nos sacos de areia naqueles galpões sujos. Um narigudo aparece no vão da porta e avisa: é hora da carneação. A frase tem efeito imediato sobre o treinador, que arregala os olhos e acende um cigarro no outro. É um cagão mesmo. Isso só faz a minha confiança aumentar: vou guindar o fulano dentro da casa dele.
O Dão termina de enfaixar as minhas mãos. Sinto consistência nos punhos e raiva no coração. Calço as luvas e levanto a guarda à altura do rosto. Admiro as minhas mãos encobertas pelas luvas. Uma marretada dessas mói o maxilar de qualquer sujeito. O roupão de cetim vermelho cobre o meu dorso nu. O Dão vai à minha frente abrindo caminho. Ponho as mãos em seu ombro, cabeça protegida pelo capuz, vou pulando para não perder o aquecimento. Mal apareço e a torcida do cara me vaia. Passo pelas cordas, subo no tablado, dou uma volta inteira com os braços erguidos. As luzes do ringue escurecem a minha vista. Gringo acha que tudo na vida é Bróduei. Ainda mais os argentinos. Eles se acham a última Coca-Cola gelada do deserto. Tiro o roupão, exibo o meu corpo crivado de músculos. Chego a brilhar. Nenhuma pelanca sobrando. Olho para mim mesmo cheio de orgulho. Bato com as duas mãos no meu peito e grito coisas sem sentido. A minha provocação é respondida imediatamente. Vaias, vaias, vaias. O barulho é ensurdecedor. Eles vão ter de engolir os uivos; o fulano, os dentes.
O Dão coloca o banquinho no córner. Me manda sentar. Ele segura a minha cabeça com ambas as mãos, encosta nossas testas. Sinto o seu hálito de café e cigarro. A voz pausada dá conselhos enquanto as suas mãos grossas desferem tapinhas na minha cara.
“Prepara com a canhota e detona com a direita” – ensina, caçando com as pupilas negras possíveis reações no meu rosto. “Faz o gringo sambar. Só não fica parado na frente dele, senão você vira mingau”.
A pálpebra do seu olho esquerdo não para tremelicar. Efeito colateral dos diretos de direita que recebeu no meio da cara.
“É bater e rodar, bater e rodar. Não deixa o cara diminuir o espaço”.
Cada alerta correspondia a um tapinha.
O juiz se aproxima, segura o meu queixo com uma das mãos e manda o tirar o excesso de vaselina do meu rosto. O Dão sorri e obedece imediatamente. Mal o cara dá as costas, ele volta a emplastrar o meu supercílio. Malandragem, malandragens. Só sabe quem gastou a vida em cima dos ringues.
O juiz chama os lutadores para o centro do tablado. Coloca frente a frente eu e o fulano. Por alguns instantes, cada um experimenta os seus medos no outro: sangue nos olhos. Vou soltar o braço no fulano. Blablablá, blablablá, blábláblá. Vou fazer o fulano gramar. Blablablá, blablablá, blablablá. Vou ganhar do fulano na casa dele. Blablablá, blablablá, blábláblá. O fulano vai aprender que a rapadura é docinha, mas não é mole, não. Blablablá, blablablá, blablablá: esse juiz fala mais que taxista numa corrida daqui para Itaquera. Depois faz um sinal com as mãos para cada um ir para o seu canto. Uma boazuda dá a volta no ringue segurando a placa do primeiro assalto. Sinto um puta frio na barriga.
Soa o gongo. O cara vem bufando para cima de mim. Acompanho o seu cerco pelo vão da minha guarda, dou dois passos para trás, sinto as cordas comprimirem as minhas costas
“Faz o gringo sambar”, a voz do Dão lateja na minha cabeça.
Faço um pêndulo, gingo, deixo o fulano a ver navios: fui criado no samba. O dito-cujo não dá refresco. Quer se aproveitar do fato de lutar
“Bora acordar, chegou o grande dia do Sul-americano, bora acordar”, diz o Dão, ensaiando um sorriso com os poucos dentes que lhe restam na boca.
Abro os olhos sonolentos. Sinto tudo rodar.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
A importância relativa das coisas

Assim ele caminhava desacorçoado no meio da chuva. Sem voz, pernas e braços vencidos, camisa encardida com os punhos esgarçados. Desprezado, desprezível. Mas ainda era domingo, a segunda-feira tinha tudo para ser muito pior...
domingo, 13 de setembro de 2009
No te vayas, Maradona
Quando estava em Buenos Aires, em maio, conversava com o meu amigo Hernán Reig, um mito argentino do quilate de Gardel, Che e Perón, sobre futebol. Ao contrário da paixão que o tema suscita entre brasileiros e argentinos, não demos nenhuma entrada desleal a la Simeone. Eu disse que achava um erro tanto Brasil, mas principalmente Argentina terem técnicos inexperientes. Uma coisa é ser um grande jogador dentro de campo, outra é ser um craque na borda dele.
O Dunga a bem da verdade está provando que a minha tese é furada. A minha e a de muitos jornalistas esportivos, que questionaram a escolha do nosso capitão do tetra. Ou pelo menos parte dela. Afinal, treinar uma equipe que tem Julio César, Kaká e Luis Fabiano é muito fácil, diria o Zufo, técnico do mítico Guarany de Cruz Alta. O Brasil do professor Dunga vai muito bem obrigado, já a Argentina do técnico Maradona...
Diego Armando Maradona é o melhor jogador da história argentina de todos os tempos e um dos maiores do mundo. Ele comandou a seleção campeã na Copa do México de 1986 e vice no mundial seguinte. Isso como atleta. No papel de treinador é um desastre. A equipe da Argentina ocupa a quinta colocação das eliminatórias sul-americanas faltando duas rodadas, um jogo em casa contra o Peru e outro fora diante do Uruguai. Para piorar a situação, Colômbia, Venezuela e o Uruguai e estão muito próximos da Argentina na tabela de classificação. Até a vaga para a repescagem está ameaçada. Sem falar que o arquirrival Brasil já está classificado.
Depois da ultima rodada quando perdeu para o Paraguai, em Assunção, e para o Brasil, em casa, choveram criticas para El 10. Nem o jornal esportivo Olé poupou-o: “No vamos a ningun lado” (Não vamos a lugar algum), estampou na capa junto com uma lista de supostos erros do técnico argentino. Na coletiva, Diego disse que vai dar o sangue pela classificação para a Copa da África do Sul. A situação do ex-craque é o exemplo mais apurado da minha conversa com Hernán. O agravante é o imenso ego de Maradona em não querer enxergar os próprios equívocos como a convocação do Sebá, um dos piores zagueiros que já vi atuar, que o diga a torcida do Corinthians.
Sinceramente acho uma pena se a Argentina não conseguir se classificar para o mundial. Como torcedor brasileiro torço para que a equipe de Messi esteja no torneio e que a gente ganhe deles na final. Crueldade, crueldades. Inclusive por isso espero que Diego Maradona continue no cargo até lá. Enquanto espero, lembro aquela antiga música da dupla Jane e Herondi: Não se vá. Desculpe, Hernán, a provocação foi mais forte que eu.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Relatos Mínimos Angola Vol. 3 - Seba e a wissolela*
“Para mim e a felicidade” – completa, antes de abrir um sorriso maroto e os seus olhos brilharem.
Era a felicidade chegando...
*Wissolela: felicidade em kimbundo, uma das línguas nacionais de Angola.
Relatos Mínimos Angola Vol. 2 – Pérolas
Rua da Samba, nove da manhã. Uma mulher vestindo trajes típicos impecavelmente limpos, colhe pérolas no lixo para dar de comer aos filhos.
Existe muita tranqüilidade no seu gesto desesperado...

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